sábado, 19 de agosto de 2017

PASSAPORTE || Travel Q&A


Quais devem ser os passos a tomar antes de viajar para algum lugar?
Vamos supor que já tens, pelo menos, o voo pago. O segundo passo é a estadia. É onde eu perco mais tempo porque acho que vale muito a pena pesquisar. Eu faço tudo, vejo reviews, comparo preços, vejo a localização, leio o que vem incluído e adapto muito ao tipo de viagem. Percam tempo nesta parte, façam contas e sejam Tio Patinhas. É chato, mas compensa.
O outro passo é saberem ao que vão. Pesquisar que sítios querem visitar, que comidas típicas querem provar - e quais os restaurantes recomendados para isso -, que eventos ocorrem na vossa data de visita, que parques é que valem a pena passear, quais são as atracções turísticas gratuitas e apontar o dia em que o museu x tem entrada gratuita (não consigo explicar-vos o quanto isto vale ouro, por favor, pesquisem isto para pouparem colossos de dinheiro). Gosto muito de pesquisar recomendações de blogues de viagem ou de ver o que é que os locais recomendam mesmo visitar... 

Outros passos que eu acho importantes é ver o clima, para não levarem roupa inútil. Se forem viajar aos Domingos ou Segundas, tentem pesquisar se o sítio para onde vão costuma ter muitas coisas fechadas nesses dias, para que não vos aconteça planearem ir ao sítio x no Domingo e darem com ele fechado (spoiler: em Espanha, tirando Madrid, é certo e sabido que isto acontece). É importante ter atenção às burocracias ou procedimentos médicos exigidos em determinados países (se marcaram férias para a Indonésia marquem logo a seguir a consulta do viajante porque estas consultas têm sempre lista de espera e as vacinas e medicamentos, por vezes, necessitam de muitas semanas no nosso organismo para poderem fazer efeito, ou seja, não vos serve de nada vacinarem-se na véspera da viagem). Verifiquem se os bilhetes comprados online têm desconto ou são mais baratos do que se comprarem no próprio local (poupam dinheiro e stress em filas). E, se puderem, dêem preferência ao check-in online, é fácil e poupam tempo em filas, uma vez mais. Se são um desastre a fazer malas e esquecem-se de tudo, vão ao Google e pesquisem por "checklist de viagem". Aparecem imensas listas já feitas de essenciais para fazer a mala e assim vão colocando tudo e riscando sem se esquecerem de nada (e podem acrescentar coisas na folha). 

Que dicas dás para pouparmos dinheiro para as viagens?
Eu confesso que, no que toca a poupanças, sou bastante disciplinada; se estou a guardar o dinheiro para realizar um determinado desejo, não lhe toco. Mas existem dois comportamentos - não lhes chamo de truques - que acho que são muito importantes nesta questão de poupar dinheiro para viagens. Em primeiro lugar, é terem uma ideia minimamente concreta de qual é o orçamento da viagem que desejam. Em vez de perguntarem aos outros quanto custa, normalmente, uma viagem a Londres, ou ter "uma ideia", vão pesquisar nas companhias aéreas, mais do que uma vez, e vejam qual é a média de preços por passageiro. Vão aos sites dos museus, monumentos, parques de diversões ou restaurantes que querem visitar e avaliem os preços. Pesquisem nos sites de alojamento os espaços onde aceitariam ficar e, uma vez mais, avaliem preços. Vejam os preços dos transportes e, claro, estipulem uma margem extra para compras ou imprevistos. 

Parece muito plano para quem ainda tem de poupar o dinheiro, mas eu acredito muito nesta questão de terem um valor real para o qual têm de lá chegar. Considero que é mais fácil saberem exactamente para o que estão a poupar. Uma coisa é imaginarem que uma viagem para um lugar custa x, outra é terem feito o trabalho de casa e perceberem que realmente custa y. Até porque todo este processo de pesquisa torna o vosso sonho um pouco mais real e começam mesmo a equacionar possibilidades. Deixa de ser só um desejo e passa a ser uma vontade que realmente pode ser palpável e este raciocínio também vos ajuda a quererem realmente fazer com que a viagem aconteça (especialmente se nunca viajaram na vida e vêem as viagens como um "sonho quase impossível").

A segunda, é estabelecer prioridades. Não há milagres, no que toca à poupança e, se realmente querem ir a Nova Iorque, vão ter de dizer não à Nova Colecção, vão ausentar-se de algumas saídas à noite, vão repensar nos jantares fora e vão questionar-se vezes e vezes sem conta se a compra que estão prestes a fazer é mais urgente ou enriquecedora que uma viagem. Não pensem que compras pequenas ou saídas regradas não "fazem mal nenhum". Todo o cêntimo é importante. Não tenham problemas em dizer "Não posso, estou a poupar dinheiro para ir a Paris". Não há vergonha nenhuma nisso e, quanto mais conseguirem manter o vosso círculo de pessoas a par desse objectivo, mais facilmente eles ajudam-vos a recordarem-se disso cada vez que estiverem prestes a gastar dinheiro.

És a favor de excursões? Já percebi que às vezes viajas com guia, queria perceber as vantagens
Eu acho que todo o tipo de viagem é válido e isso inclui, também, a forma como as pessoas desejam conhecer o local. Pessoalmente, só fiz excursões em destinos tropicais porque o próprio resort reúne-se com os recém chegados e apresenta-vos os pacotes de experiências, que normalmente são mais baratos e pensados para grupos, o que compensa imenso. Quando não estou nestes regimes, prefiro ser eu a escolher onde vou a seguir ou o que me apetece fazer. Mas nestes locais gostei muito de ir em excursão, senti-me absolutamente livre para ver tudo no tempo que quisesse e não tenho queixas. 
Também só viajei com guia para destinos tropicais e gostei imenso porque eu converso muito com todos eles. Gosto de os conhecer e de fazer perguntas muito objectivas sobre o local, o estilo de vida das pessoas ou pormenores que, sem guia e apenas observando, não iria conseguir descobrir. Foi através da grande maioria deles que eu consegui informações muito interessantes e que partilhei convosco. Também são excelentes como pontes de comunicação. Por vezes conheço um local e tenho uma dúvida, mas não sei como a colocar da melhor forma e o guia auxilia-me a comunicar com essa pessoa (especialmente se o local se comunicar numa língua que não domino, como as linguagens tribais do Senegal). Nestes aspectos, eu gosto muito e acho uma vantagem. Não os acho urgentes (excursões e guias) em capitais muito urbanas, onde me sinta dentro do ambiente mas acho-os fantásticos quando estou a conhecer um destino com uma cultura e um ambiente muito discrepante do meu.


Qual a parte "má" de viajar? Aquela que te aborrece, ou algo que não gostes? 

Há três coisas que eu realmente detesto; a primeira, é voos de longo curso. Não importa se existem setenta filmes, se trago trinta livros ou trezentas mil outras coisas para me entreter; ao fim de cinco horas de voo, vocês já não se conseguem focar em nada. Ou, pelo menos, eu sou assim. Perco a concentração a ler/ver o filme, não tens absolutamente mais assunto nenhum para falar com a tua companhia, estou desesperada para correr a maratona no corredor do avião porque as minhas pernas têm o tamanho de dois Big Ben e, a pior de todas, não sou capaz de dormir em aviões. Não consigo, não adormeço, nem sequer consigo "passar pelas brasas", portanto, eu vivo intensamente cada hora de voo. E sofro ainda mais quando faço estes voos durante a noite, porque dá-me ansiedade ver toda a gente a dormir maravilhosamente e eu incapaz. Mal posso esperar por fazer voos até à Ásia ou Oceania...

A segunda, é burocracia de aeroporto. Tenho notado um padrão especial em países tropicais (República Dominicana, Cuba, Senegal...). É exasperante. É o número de vezes que passas em pontos de controlo, é o teu nome que nunca aparece porque eles não sabem como é que se escreve, nunca apareces no sistema e a seguir já lá estás, é as confusões no embarque, a salganhada nos check-in, as entrevistas a perguntarem-te tudo e mais alguma coisa e nunca perceberem a tua dicção (nem tu a deles). Dá cabo de mim. Especialmente quando aterro. Porquê? Porque estive oito horas desperta durante o voo.

A última, é a profilaxia da Malária. Eu nem sou de recomendar isto mas leiam a bula destes medicamentos. Tudo o que vocês possam imaginar de efeito adverso, está lá e estes fármacos interagem com tudo (muito cuidado com isso. Se estão a tomar antibiótico ou pílula, saibam que o medicamento corta brutalmente o efeito. Se estão a tomar ansiolíticos, informem o médico, para que ele vos receite o medicamento que interaja o menos possível). Eu e a minha companhia tomámos fármacos diferentes. O meu era o comum, o Mephaquin, o outro era mais caro e mais específico para não interagir com alguns medicamentos. E, meus caros, eu tive todos os efeitos adversos da bula. Todos. A minha companhia não sofreu nada com o fármaco dela. Recuso-me a voltar a tomar este medicamento (cometi o erro de pesquisar reviews e é arrepiante o número de pessoas que se queixam do mesmo que eu) e prefiro pagar mais e não sofrer, de todo.

Algum destino que não tenhas gostado muito e que não seja, de todo, uma experiência a repetir?
Nunca tive nenhuma desilusão com destinos nem más experiências. Adorei todas as minhas viagens e todas as actividades que escolhi fazer. Mas se me perguntasses, de todos os lugares onde fui, qual era o último que regressava, talvez escolhesse Milão. É uma cidade maravilhosa (um pouco industrial e sem qualquer "estilo italiano", mas gira à sua maneira) e fiz visitas magníficas durante essa viagem, mas não é uma cidade que esteja deserta por regressar. Há lugares que merecem mais prioridade. Mas recomendo muito, muito, muito!


Qual o sonho mais utópico de viagem?

Tirando a minha tour por todas as Disneylands do mundo? Ir à Austrália e/ou Japão. São destinos tão remotos e que exigem tanta dedicação (a nível de pesquisa, poupança e tempo), que eu acho que não vou acreditar, se algum dia pisar estes dois países. Vou sentir-me completamente realizada e com a sensação de que "cumpri duas missões especiais de vida".

Músicas que marcaram algumas das tuas viagens?
Don't Let It Break Your Heart - Coldplay (Edimburgo), Bright Lights - Thirty Seconds To Mars (Veneza), Hasta Que Se Seque El Malecón - Jacon Forever (Cuba), Zombie - Day Wave (Madrid), Heartbreak Dream - Betty Who (Barcelona), What They Say (Senegal).

Que moedas já usaste?
Euro, Libra, CUC, Dólar (há países onde já fui que têm outras moedas mas eu só contei aqui aquelas que realmente usei. Nem todas as moedas nacionais são permitidas a turistas).

Como costumas ocupar o tempo nos voos de longo curso?
A pergunta de um milhão de euros; costumo ver os filmes que passam nos voos, levo um ou dois livros (de preferência, gosto de já ter iniciado um deles, para já estar familiarizada com a história e abstrair-me mais facilmente do tempo), capricho em playlists infinitas de música, faço download jogos que dêem para jogar offline e - estes são três truques que me salvam muito! - uma semana antes da minha viagem, deixo de ver os vídeos dos canais que tenho subscritos no Youtube e passo-os a todos para o iMusic, porque assim posso assistir a tudo durante o voo, já que a app permite ver vídeos do Youtube de forma offline, trago aquelas carteiras com sopas de letras ou palavras cruzadas, etc., porque ocupa muito bem o tempo e dá para fazer com a companhia e compramos duas revistas, que tentamos ler em conjunto para depois comentar o tema (maravilhoso para passar o tempo). Sem estes truques, não sou nada.

Lugares para onde nunca viajarias e porquê?
Não tenho nenhum destino que me recuse a visitar ou que não me desperte o desejo de conhecer, para ser sincera. O que eu tenho é receio de visitar determinados destinos que não me ofereçam segurança (quer pelo índice de criminalidade astronómico, ou por ser epicentro de um conflito armado, ou por viverem sob ditadura fortíssima). Não me ponho a jeito. Azares podem acontecer em qualquer lado - especialmente na actualidade em que vivemos - mas se as probabilidades são muito pesadas, eu confio na matemática e prefiro que esses factores sejam eliminados (ou atenuados) para ir visitar esses lugares que desejo tanto conhecer, mas com o coração tranquilo.

Para onde, a seguir?
Os sonhos são muitos e as miras estão apontadas mas, neste momento, não tenho viagens marcadas. Essencialmente, pela imprevisibilidade da agenda. Mas desejo muito que esse factor estabilize para poder começar a arregaçar as mangas e planear a sério. Gostava que a próxima viagem fosse o concretizar de um sonho guardado, e como tenho vários possíveis de cruzar, a coisa fica mais fácil (e divertida). Mas tenho um desejo muito particular que gostava de concretizar.


Alguma vez sentiste verdadeiramente ameaçada em viagem?

Não, de todo. Já viajei sozinha, já conheci tribos que vivem no meio do deserto, já andei em ruas de absoluta miséria e nunca olhei por cima do ombro ou comecei a ter suores frios. O mais perto que tive de sentir o coração apertado, foi na República Dominicana, quando parámos numa loja e, ao olhar para o cimo do edifício, vi dois seguranças armados de metralhadora, a vigiar. Mete muito respeito, quando vês este cenário com os teus próprios olhos. E não adorei que estivessem constantemente a pedir-nos que metêssemos máquinas, telemóveis e carteiras dentro das mochilas. Mas foi o único país onde tive esses percalços.

Como consegues fazer com que a roupa não fique amarrotada na mala?
O meu derradeiro truque é não levar tecidos que amassem. Na hora de escolher as peças de roupa, como já sei o que amassa mais ou menos, faço a filtragem por aí. Se quero mesmo levar algumas peças que eu sei que amassam com facilidade, arrumo-as no fim ou enrolo-as (mas eu aconselho MUITO que treinem aquele truque lendário da t-shirt enrolada antes de irem viajar, porque não é assim tão fácil como parece enquanto não apanharem o jeitinho. Depois, é maravilhoso. Treinem com roupa que não vão levar).

Top life hacks de viagens que nunca dispensas?
Tenho alguns, são eles: se vamos levar malas para o porão, misturamos as roupas de toda a gente por todas as malas. Ninguém leva todas as suas coisas numa só mala de porão porque, se se perder, a pessoa fica sem nada. Assim, se algo acontecer, tem roupas na mala dos outros; outra coisa que faço é usar as caixas das lentes para meter cremes porque assim não excedem a quantidade permitida, quando viajam em low-cost e levar um conjunto de roupa na mala de mão porque, se a minha mala de porão se perder, tenho pelo menos um conjunto extra de roupa para vestir (a burocracia de malas perdidas e o tempo que levam a chegar a nós é enorme e convém que tenham roupa extra).

Nunca equacionaste ser assistente de bordo, comandante, etc?
Comandante nunca quis ser. Aliás, eu tenho grandes dúvidas de que conseguisse ser e passasse nos testes visuais, já que eu sou uma toupeira. E sobre ser assistente de bordo eu já cheguei a escrever uma publicação no blog, AQUI, onde explico que nunca tive esse sonho (embora não me importasse nada de o ser por um curto prazo de tempo, seis meses, por exemplo). São duas profissões que, embora tenham todo um romantismo de viajarem imenso e conhecerem imensos lugares - e é uma verdade - exigem muito sacrifício, disponibilidade total e resultam sempre em ausência. Da família, da rotina boa, da tua casa, dos teus amigos...  Eu desenvolvo mais esta questão na publicação. Em jeito de conclusão: eu não me importava de viver a experiência de ser assistente de bordo uma vez na vida e em curto espaço de tempo.

Melhor parte de viajar?
Sem dúvida a descoberta, o deslumbre de finalmente veres tudo com os teus olhos, a parte de explorares tudo e de conheceres mais e mais. É uma sensação de realização enorme, de conquista que invade o teu coração de uma forma incomparável. Eu fui ali. Eu vi este quadro. Eu comi este gelado. Eu dancei ao pé desta fonte. Eu conversei com esta pessoa. Eu vi o nascer do Sol do lado da praia. É este tipo de pequenas conquistas que te proporcionam as memórias que não esqueces, para o resto da vida. Esta é a melhor parte de viajar; quando metes o pé fora do aeroporto, pela primeira vez.

3 Coisas que não dispensas na mala de viagem
Vou referir os meus TOP 3 de mala de mão mas a verdade é que são muito óbvios e pouco extraordinários (#keepitreal) que é a carteira, livros e mp3. Se eu me esqueço e meto esses itens na mala de porão, sinto o meu coração a despedaçar-se lentamente.

Muito obrigada por todas as questões! Espero que seja uma publicação útil!

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MÚSICA || Anavitória


Conheci-as no início do verão, quando me enviaram a Trevo (Tu), e apaixonei-me perdidamente. Desde esse dia, têm sido a minha perdição e compreendi que não podia deixar de as partilhar convosco. Estou a falar de Anavitória.

Anavitória é uma dupla de mulheres brasileiras - Ana e Vitória - que já conquistou por completo o Brasil. Acredito que aquilo que as torna tão Singular(es), além das vozes melódicas, delicadas e que combinam de uma forma deliciosa, são as letras, que mostram aquele lado do amor tão vulnerável, tão simples, tão puro. É assim que eu vejo o amor, neste espectro doce e cheio de alma, em que nos sentimos despidos por dentro, em que ouvimos uma letra e sentimos o coração a corar porque reconhece as sensações. É adorável.

Oiço-as a toda a hora; aos sábados de manhã, ao final do dia na varanda, no carro... Dou por mim a trautear as músicas e já sei as letras todas de cor. Suspiro para ter o álbum delas na mão (o que vai ser difícil aqui por Portugal) e penso sempre na Belka quando oiço a Trevo - que é a música que vou deixar aqui abaixo, para ouvirem -. Há muito tempo que eu não sentia esta ligação tão especial com letras de músicas e com as melodias, em simultâneo. Dêem-lhes uma oportunidade e oiçam, porque é diferente de tudo o que já ouviram. Não se vão arrepender. Prometo.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Travel Q&A


Gostariam que eu fizesse um Travel Q&A? Então deixem nos comentários as vossas questões relacionadas com o tema, podem ser curiosidades que queiram satisfazer sobre as viagens que já fiz ou dúvidas que achem que eu sou capaz de esclarecer, dicas, conselhos... O que quiserem!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MÚSICA || Playlists do Spotify Preferidas


Não é segredo nenhum para vocês que eu adoro música, nos mais variados estilos. Existem vários tipos de ouvintes de música - todos eles válidos - mas eu sou incapaz de viver sem música e de só ir conhecendo coisas novas através da rádio. Não sou uma pessoa que ouve música pela sensação de companhia ou para encher a sala, como muitas vezes fazemos com a televisão. No fundo, eu não consigo ter esse tipo de distanciamento da música. Podia dizer que se deve ao facto de ter estudado música, de ter tocado um instrumento, de ter estudado um sem fim de partituras, mas é mentira. Desde miúda que sou assim, ligada à música, mesmo quando nem sequer compreendia notas musicais.
Eu adoro fazer playlists no Spotify. A prova disso é as dezenas que tenho criadas no meu perfil. Nenhuma existe por acaso e eu gostava de partilhar convosco quais são as minhas cinco preferidas, de todas as que criei. Talvez alguns de vós já as conheçam - e sigam! -, mas eu queria apresentá-las de uma forma mais pessoal e especial.

hot chocolate moment
Sempre quis que esta playlist transmitisse conforto. E encontro quando olho para a janela e vejo um dia nublado, com uma caneca cheia de uma bebida quente e fumegante, com a cerâmica a aquecer as minhas mãos, com o gosto doce da bebida a escorregar pela garganta. É um momento simples, relaxante, mas que me deixa muito feliz. Eu encontro conforto em cafés com mesas de madeira, janelas grandes, música Jazz ao fundo e o sorriso de alguém com quem converso. Foi a pensar nestes pormenores aconchegantes que escolhi as músicas desta playlist e espero mesmo que se sintam assim, desta forma que eu descrevi.


you'll be the dj, i'll be the driver
Esta playlist já teve um nome diferente - que é o mesmo que está na capa e que eu mantive, pelo carinho -: chamava-se "A música que vou ouvir no meu Fiat 500". Era, de certo modo, a playlist que eu gostaria de ouvir se eu conduzisse o carro dos meus sonhos. Nada me faria prever que, de facto, eu ia ter um Fiat 500 para ouvir a playlist que tinha criado especialmente para ele. Foi de tal forma engraçado que não tive coragem de mudar a capa, mas mudei o nome. Nesta playlist, encontram todas as músicas que eu gosto de ouvir enquanto conduzo. Aqui, existe uma certa mixórdia e não deixam de ser escolhas muito particulares, mas eu sempre gostei de conduzir com músicas cheias de ritmo e sonoridade. Embora adore a Smooth FM, reconheço que não é, de todo, este o estilo de música que eu gosto de ouvir quando o volante está nas minhas mãos. Eu adoro cantar - bem alto -, batucar com os indicadores no volante, fazer coreografias de pescoço e ombros, aproveitar os semáforos para acrescentar mais estilo às minhas danças e de sentir a harmonia entre a paisagem que se desfoca com a velocidade e a energia das faixas escolhidas. Esta é a típica playlist para darmos um concerto e fazermos figuras tristes no trânsito. Ou para trazer mais beleza e intensidade a uma roadtrip.


instrumental mood
Aqui, as minhas raízes de estudante musical abraçam-me. Eu confesso que, por mais que adore uma boa voz, o meu coração inclina-se sempre para o lado instrumental. Eu adoro quando uma música tem um excelente corpo musical, do qual nem sentimos falta da voz - que também é um instrumento, eu sei -. Aqui não há voz mas há sons aveludados das cordas dos violinos e violoncelos, pingos de chuva provocados pelos pianos, batimentos cardíacos acelerados pela energia das cordas das guitarras, fluidez garantida pelos instrumentos de sopro. Há música clássica e contemporânea e inúmeros artistas que podem ficar a conhecer pela sua mestria em composição ou instrumentalização. Também gosto muito de incluir nesta playlist algumas faixas de bandas sonoras preferidas de filmes. Enfim, talvez não seja uma playlist com um ritmo fluido e harmonioso (tanto podem estar a ouvir, num momento, uma música de piano delicada como, na faixa seguinte, uma banda sonora apoteótica) mas acho que é um espaço excelente para mergulharem no mundo dos instrumentos e da música no seu lado mais orgânico. Gosto sempre de aconselhar quem ouve esta playlist (ou música instrumental) para prestarem atenção em todos os sons e nos instrumentos de fundo, e não simplesmente na sonoridade em geral.


nap nap
Embora seja um título sugestivo, não é música de dormir. Há dias em que só quero deitar-me (ou mergulhar numa banheira de água quente e perfumada) e fechar os olhos. Não necessariamente para dormir, mas para sentir o peso do dia e os problemas acumulados a esfumarem-se. E, por isso, escolhi músicas que transmitissem esta sensação de leveza, de relaxamento. Sem ritmos acelerados, sem mudanças de volume inesperadas, sem gritos ou sonoridades pesadas. As vozes são delicadas, os tempos são vagarosos, os sons são tranquilizantes. É uma playlist que eu espero que, quem a oiça, consiga respirar fundo, de olhos fechados, e sentir o corpo a amolecer, o ombros a perder a tensão, o peito a ficar mais leve e - porque não?  - as pálpebras a pedir uma sesta apaziguante. É um refugio.


you go girl!
Eu acho tanta piada a esta playlist. É para todos nós - rapazes também, perdoem-me pelo sexismo do título -. Escolhi músicas que nos levantem o astral, que animem o nosso espírito, que nos relembrem da confiança que temos dentro de nós e de que nunca nos devemos esquecer do quanto valemos e da importância do nosso amor próprio. Pode fazer com que a manhã fique mais animada, e já vale a pena. Pode fazer com que andemos de uma forma mais confiante, na rua, enquanto ouvimos as batidas nos fones, e a missão já está cumprida. É a lista de músicas ideal para dançarmos ao espelho enquanto vestimos o nosso visual preferido, para ganharmos energia extra a meio do treino, para enxugarmos a última lágrima e dizermos "agora vou dar uma chance a mim própria de ser feliz". São as músicas que eu acho que nos inspiram a olhar mais além, a sentirmo-nos bonitos, suficientes e incríveis. Nós conseguimos chegar lá e, às vezes, a música pode ajudar-nos a relembrar disso. Ou dar o ritmo necessário para o interiorizarmos.


Foi uma publicação diferente, mas eu diverti-me tanto a fazê-la! E vocês, quais são as vossas playlists preferidas, no Spotify?

domingo, 13 de agosto de 2017

DAILY || Estrelas Cadentes


Ontem, dirigi-me à varanda e fiquei surpreendida com a noite de verão que contemplava, sem brisas frescas. No entanto, não resisti em trazer comigo uma manta fininha, para aconchegar as pernas. A promessa era de uma chuva de estrelas cadentes que não queria perder.
Esta é a vantagem de viver no campo; todas as noites, eu tenho o privilégio de admirar um céu que muitos só desfrutam através de um acampamento, numa floresta. Sentei-me no lenço com o pescoço bem esticado, observando as centenas de estrelas brilhantes que tornavam a noite sardenta e luminosa. O céu era de perder de vista e com pontos de luz incontáveis. Se desviasse o olhar para o topo, o breu da noite abatia-se sobre mim, mas não era uma escuridão monocromática. À medida que ia descendo o olhar para o horizonte de planícies, o céu aclarava para um azul mais luminoso.

Fico sempre com expectativa quando sei que vão passar estrelas cadentes. É ainda mais incrível quando conhecemos um pouco da mecânica do Universo e admiramos a espectacularidade deste tipo de fenómenos.

A Belka juntou-se a mim e deitou-se imediatamente por baixo do lenço. Conseguia dar-lhe festinhas na cabeça com a ponta dos dedos e sentia o seu calor tão confortável. Brinquei com as orelhas dela, de um pêlo macio, quase como um peluche, enquanto aguardava a primeira aparição. Cá fora, só se ouviam os grilos a cantar num coro planeado, enchendo o ar com o som natural e relaxante. Por vezes, o concerto dos grilos era interrompido pelo canto das corujas e mochos ou pelo barulho provocado pela corrida rápida de um coelho. Mas tudo fluía em harmonia.

Quando a primeira estrela caiu no céu, brilhante, fugaz e deixando o seu inesquecível rasto de luz, exclamei o meu deslumbre para a Belka, que encarou a excitação com pulos e lambidelas na minha mão. Eu apontava para o céu, como se ela possivelmente soubesse o que estava a acontecer. Afinal, não é ela uma cadela espacial?
Depois desta, muitas outras se seguiram. A certa altura, deixem de as contar e simplesmente deixei-me ficar ali, deslumbrada, sem palavras. Não me passava sequer pela cabeça pedir desejos mas, instintivamente, fechava os olhos nos segundos seguintes à sua aparição. A Belka também parecia ficar atenta ao céu, ocasionalmente, com o seu olhar concentrado focado nas estrelas. Depois voltava a enroscar-se em mim. E assim se passaram horas, dividindo este momento na companhia uma da outra.

O Universo, as constelações, as estrelas e todos os outros pormenores fascinam-me. Quanto mais sei, mais perguntas faço e mais arrebatada fico com as respostas. E eu deixo-me levar, quando olho para as estrelas, quando olho para estes fenómenos encantadores. Sinto tudo ao meu redor esfumar-se e sinto que só existo eu, a Belka e as sardas do nosso planeta.

Talvez devesse ter cedido à tradição mágica e ter pedido um, ou dezenas, de desejos. Afinal de contas, há tanto na minha vida que eu ficaria feliz por ver concretizado e resolvido com um pedido a um feixe de luz. Mas ali, com o focinho pequeno da minha cachorra no colo, que me vê como o seu mundo, sem brisa fresca, com uma orquestra de grilos e um manto brilhante de um design inimitável, senti que ia ficar tudo bem. Talvez não de uma vez e tudo concretizado, como irracionalmente almejamos. Mas tudo irá encaixar no sítio certo e todos os meus caminhos vão dar aos devidos lugares. E sorri.

Curioso como somos absolutamente insignificantes no vasto Universo, mas o mundo mais importante das pessoas que gostam de nós até ao nosso último átomo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FOTOGRAFIA || Analog Summer


Este verão, tenho dado uso à minha câmara analógica. Além de todo o sentido de oportunidade quando só temos 30 chances de registar momentos, sinto que não é só a fotografia que se torna palpável - contrariando um pouco o movimento digital.

Há uma beleza que não vos sei explicar mas que me envolve por completo quando escolho a dedo quais são os momentos que quero perpetuar. Quais são as pessoas cujos sorrisos quero registar. Qual a altura do dia que eu quero guardar, para sempre. E quando revelamos estes registos, parece sempre que têm sabor a arte. Nunca nos queixamos de absolutamente nada porque todos os focos, luzes e pormenores estão apanhados exactamente da forma como deviam. São fotografias que nunca perdem essência, muito pelo contrário - libertam-na.

Há qualquer coisa de apaixonante numa fotografia desfocada ou de uma expressão facial espontânea, porque significa que estávamos demasiado ocupados a desfrutar em pleno do momento para preparar poses ou sorrisos. O desfoque traz o movimento, que traz a recordação. Do abraço. Da dança. Da gargalhada que nos faz soltar a cabeça para trás. A expressão facial traz o discurso, o olhar que nunca fica registado quando estamos concentrados em sorrir para a câmara, o sorriso de perfil que só dá para ser captado quando desconhecemos estar a ser fotografados.

O flash que faz o rosto ficar num clarão, com um pequeno vislumbre dos olhos. O flash que choca e reflecte a luz que a própria pessoa já irradia, de dentro. Eu olho para estas fotografias - umas mais bem tiradas que outras, todas elas importantes - e sinto a essência de cada uma. Eu oiço a gargalhada que apanhei. Sinto o cheiro do fumo do churrasco que preparávamos. Oiço o som dos pássaros na paisagem. Recordo a piada que me disseram no segundo antes de me apanharem através da lente. Sinto o perfume das pessoas e o toque dos seus abraços. Fico com o gosto da pizza que mordemos, ao mesmo tempo, e da Coca-Cola doce e fresca que estala na língua. Recordo-me dos raios de Sol finais que me escaldavam o ombro direito e recordo a pele arrepiada do ombro esquerdo, escondido na sombra. Sei todas as músicas que tocaram na fotografia de tons mais escuros. Leio as nossas conversas através dos olhos que foquei. Eternizo sentimentos que podem não durar para sempre, na vida.

Há sempre verdadeiros artistas de máquina. Os que conseguem fazer todas as luzes resultar, os que fazem todos os focos dar certo. Os que admitem a derrota quando está demasiado escuro. Os que sabem quando o rolo está a queimar. E depois existe a própria arte do acaso, que a fotografia analógica promete, sempre. De abrir o envelope e descobrir como é que a espontaneidade se apanha. São registos que tiramos, às coisas e pessoas, por fora, mas que nos revelam sempre a sua essência, por dentro.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

LIVROS || Licenciei-me... E Agora?


Entrar na Faculdade é, finalmente, levantar um véu de veludo opaco que nos ocultava os grandes desafios, segredos e realidades que teríamos de enfrentar. Quando nos começamos a ambientar à nova etapa, tudo fica mais simples e possível. 
Mas quando terminamos a licenciatura e dão-nos o canudo para a mão, vemos um outro véu de veludo à nossa frente, muito mais assustador. Há um ano que estou licenciada e vi-me no meio dos lobos e sem saber se aquilo que estava a fazer era o suposto, se era natural ou sequer se estava bem feito. Era uma sensação de improvisação sem guia que me devorava - nos devorava, não era nem nunca serei a única - e que só me fazia perguntar, no final do dia "Mas o que ando a fazer? E o que estou a fazer está bem feito?"

Sinto que foi a partir destas mesmas dúvidas e "pontas soltas" que a Catarina se agarrou para escrever este livro. É sempre uma enorme sensação boa e de orgulho quando vês alguém cujo trabalho acompanhas há muito tempo, finalmente atingir mais uma meta, especialmente quando essa meta é algo tão grande como um livro. Dei pulos de alegria quando vi que a Catarina teve a cortesia de me oferecer um exemplar, ao qual eu agradeço profundamente.

Licenciei-me... E Agora? responde às perguntas mais simples que formulamos na nossa cabeça assim que metemos um pé fora da Faculdade. Não subestimem: por serem perguntas simples e muito naturais da nossa cabeça, não significa que não sejam legítimas e com milhões de possibilidades de resposta. A Catarina apresenta-nos algumas dessas possibilidades, sempre com o seu background profissional como alicerce para os seus conselhos, dicas, truques e conclusões, o que eu achei fantástico e admirável.

Não são só vocês que não sabem se devem responder aquele anúncio de emprego ou seguir outro caminho. Se devem permanecer na mesma área ou arriscar em algo novo. Se fazem um CV Europass ou experimentam um novo design. Ou como se escreve uma carta de apresentação. Ou o que dizer numa entrevista e como responder a um e-mail. Não são os únicos que estão no barco "como é que crio presença no mundo profissional?". Estamos todos e este livro traz esse aconchego: não estás só e nenhuma das tuas dúvidas é absurda ou impossível de resposta. 

Existem vários pormenores que me fizeram adorar a sua leitura, entre eles, a inclusão de testemunhos muitos distintos, que nos fazem conhecer várias perspectivas sobre o mesmo assunto - e conseguir abrir um pouco mais a mente em relação a muitos aspectos profissionais -, e o equilíbrio entre o percurso pessoal da autora e a sua estrutura prática e objectiva, fazendo com que a informação fique muito clara e concisa mas sem se tornar num livro demasiado técnico e aborrecido. Não é banha de cobra: efectivamente este livro pode ser a bengala para alguém que se vê completamente perdido sobre como agir, apresentar-se, procurar ou até investir o seu tempo no mundo profissional. Não vai traçar o caminho que vocês precisam para chegar ao sucesso, mas é um bom treinador para que vocês consigam chegar lá com a vossa personalidade e talento. E isto era muito urgente!

Já sou licenciada há um ano e já me lancei aos lobos. Claro que não pude deixar de me identificar com inúmeros pontos deste livro, incluindo o estágio curricular que não termina bem - e nunca se sintam falhados se o vosso também não for de sonho -, abraçar um emprego que nada tem a ver com a vossa área de formação - foi o meu primeiro emprego e foi maravilhoso, aprendi tanto e gostei tanto de lá estar! -, receber dicas muito fortes sobre o meu CV - obrigada Dinis! - e sentir que a minha paixão por uma coisa tinha morrido e sentir-me culpada por isso. Tudo isto eu vivi e a Catarina também, só que ela conseguiu transformar todas estas experiências em dicas e aprendizagens maravilhosas que eu jamais seria capaz de fazer, mas que acho importante que as conheçam. Porque vão estar mais preparados para vivê-las do que talvez eu e a Catarina tenhamos estado. É maravilhoso!

Não risco em livros e não os sublinho. Mas não conseguem imaginar as dezenas de excepções que abri neste livro para marcar dicas valiosas, truques fantásticos e links úteis. Se tivesse de entregar apenas uma palavra ao Licenciei-me... E Agora?, seria: útil. Também eu continuo a viver os meus desafios profissionais e também continuo perdida em alguns assuntos e o livro ajudou-me não só a esclarecer muitas dúvidas como também a sentir-me mais confiante por ver que algumas das acções que fazia, desconhecendo se estavam bem feitas ou pertinentes, eram cruciais.

Recomendei-vos o Faz o Teu Curso na Maior, para quando mergulhassem na vida académica. Agora recomendo-vos - vezes e vezes sem conta - o Licenciei-me... E Agora? quando mergulharem na vida profissional. Muitos, muitos parabéns, Catarina, por todo o trabalho e dedicação - muito visíveis - que depositaste neste livro e que, acredito, é uma bóia salva-vidas para muita gente. Pelo menos foi para mim, confesso.

Autora: Catarina Alves de Sousa
Número de Páginas: 183

quarta-feira, 2 de agosto de 2017


Previsível mas fantástico, Julho foi (muito) musical. Mas não foi só de (boa) música que este mês ficou registado. Certo, o tempo por aqui não foi o mais fiel ao verão, mas todos os meus dias foram muito luminosos e cheios de momentos e detalhes que tornaram Julho absolutamente especial. Espero conseguir passar-vos esta alegria e energia!

domingo, 30 de julho de 2017

ISTO É TÃO INÊS || Reconheço-me


É tão belo e familiar quando nos encontramos nos outros e no mundo. Não no sentido de nos apropriarmos de algo ou alguém, mas no sentido de nos vermos ali, reflectidos, tão nós. Tão Inês. Quando me vejo numa citação do meu livro preferido, na letra das músicas que oiço. Nos sons graves das cordas do violino e nos raios de luz dourados ao final do dia.
Quando me encontro nos meus sabores preferidos, na frescura dos gelados, no aconchego da sopa, do tempero das comidas. Quando vejo o meu trejeito a sorrir no rosto de alguém e os olhos a brilhar da mesma forma. Quando vejo a minha expressão de sempre sair espontaneamente dos lábios de um amigo. Quando o amarelo do girassol me recorda dos meus cabelos loiros a brilhar ao sol e as rosas vermelhas do meu rubor constante em elogios sinceros.
Quando me encontro num personagem de um filme e nas ondas do mar. Na gargalhada das pessoas que gosto, na peculiaridade do Earl Grey Tea com leite que bebo, todas as manhãs. Nas constelações que observo da janela panorâmica do carro, num céu com sardas iguais às minhas. Eu encontro-me no calor do verão e no nublado do outono. Ou quando me sinto espelhada num quadro de um pintor que nunca soube quem era. No som do piano com as luzes de Natal, no inverno.
Encontro-me nos abraços que recebo de quem conhece o meu coração a microscópio. E encontro-me nos poemas sobre o amor - aos outros e a nós próprios. Na frescura de um mergulho de piscina de manhã. Na postura a ouvir da minha mãe. Nas músicas de jazz que escuto num café. Nos temas de conversa que me desafiam.

É uma sensação quentinha, que me aconchega por dentro. Quando nos reconhecemos nos outros, nas coisas, nas sensações, reconhecemos quem somos também. Eu encontro a Inês em qualquer lugar e em qualquer detalhe, se ela lá estiver. Eu conheço-a. E a verdade é que nos adaptamos ao mundo nas suas mais inesperadas e intrigantes características, mas quão belo é saber que uma parte ínfima do mundo tem a cortesia de, também ele, se adaptar a nós? 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

FILMES || To The Bone


Ellen tem 20 anos e sofre de anorexia nervosa. Depois de inúmeras tentativas falhadas e expulsões em clínicas, a madrasta decide fazer uma última tentativa e consultar um médico com ideias de tratamento pouco convencionais e que desafiam a jovem a ver a vida além da doença.

Não estaria a falar sobre este filme se fosse mais um sobre anorexia. Não há tema mais saturado que este, seja em filmes, séries, novelas, trabalhos de grupo da escola. Já toda a gente (diz que) sabe o que é e quais são os sinais. To The Bone apresenta-nos a anorexia - e, por conseguinte, o seu tratamento - de uma forma completamente nova e muito desconhecida para os leigos da área da nutrição e da psicologia. Toca em vertentes da doença que raramente são falados nos meios comuns que acima referi. Mostra-nos vários tipos de pessoas que sofrem de anorexia e com fisionomias, géneros, e backgrounds familiares diferentes e eu acho isso muito interessante.

O tema é pesado, mas o filme é muito leve, jovem - como o seu elenco - e com muitos laivos de comédia, que aligeiram um tema cada vez mais urgente. Apesar de ser da área de nutrição, sou muito pouco fundamentalista em relação a tudo, inclusive no respectivo tratamento das pessoas, e gostei muito de ver a abordagem deste médico para o tratamento da anorexia - embora, em Portugal, fosse completamente irreal porque iria ser devorado por todas as Ordens possíveis e imaginárias -. Ainda assim, os seus métodos de diálogo com os pacientes, os exercícios que propunha, os desafios que lhes apresentava foram muito importantes para me enriquecerem profissionalmente. Só por este detalhe, eu recomendo imenso este filme a todos os meus colegas de nutrição e - muito importante - psicologia.
Um outro pormenor que me surpreendeu imenso foi descobrir que a própria protagonista do filme, Lily Collins, já sofreu de distúrbios alimentares. E só por esse facto eu admiro-a muito por ter aceite participar num desafio tão grande como este e fazer um retrato tão real da doença. Acredito que não tenha sido fácil.

To The Bone é um filme leve que retrata a anorexia tal como ela é, em todos os seus espectros: uma doença mental. Actual, envolvente e que nos coloca a reflectir sobre a imagem que temos do nosso corpo e sobre o quão complexa é esta doença - embora os vossos trabalhos de 8º ano e seguintes dêem a entender que não -.
Recomendo a toda a gente. Toda a gente. Precisamos de mais filmes assim, que nos dêem um choque. E para os meus parceiros de nutrição e psicologia, é obrigatório.