domingo, 21 de maio de 2017

EVENTOS || Cine-Concerto Harry Potter e a Pedra Filosofal


Comprámos os bilhetes em Janeiro e, desde então, fomos riscando o calendário, com expectativa, até chegarmos ao grande dia. O bilhete foi um certo tiro no escuro, porque não tínhamos lugares marcados e eu confesso que não sou muito fã da acústica do MEO Arena. Mas nem essas dúvidas impediram-nos de dar pulos de entusiasmo e alegria, como se fôssemos crianças.

Acompanhando o primeiro filme que deu início a uma saga tão acarinhada por tantos, Harry Potter e a Pedra Filosofal, esteve a Orquestra Filarmónica das Beiras, com mais de 100 músicos, a interpretar todas as músicas integrantes do filme, ao vivo. E foi um dos melhores concertos que tive o privilégio de assistir.

Quem é amante de música, como eu sou, compreende a importância deste elemento em filmes, especialmente em Harry Potter, cuja instrumentalização ainda acompanha muito a dinâmica do filme. As composições de John Williams - criador da banda sonora - sempre circularam pelos meus ouvidos e nunca passaram despercebidas durante o filme, tivesse eu a idade que tivesse. Estava, portanto, com muitas expectativas em relação à riqueza da instrumentalização, do timing - porque se se atrasassem um tempo, a música e a acção do filme já não iam bater certo - e da própria beleza que a Orquestra podia proporcionar. E não saí desiludida; tudo nos tempos perfeitos, a música envolveu o MEO Arena e trouxe ainda mais beleza para um filme que eu sei de cor e marcou a minha infância. 

Um outro detalhe que gostaria muito de salientar, foi o comportamento exemplar da plateia; num pavilhão inundado de pessoas, a Maestrina Sarah Hicks não só dominou com uma brilhante destreza e elegância a Orquestra, como também conquistou um silêncio absoluto do público, que só se insurgia para aplaudir no início, intervalo e fim do filme e nas cenas de comédia. Isto foi muito importante para que toda a experiência fosse mais bonita. Muita gente disse-me que não ia porque achava que não ia ser nada de especial; um grande erro. A fusão do cinema com um corpo tão gigantesco de músicos a tocar obras que conhecemos de cor foi envolvente, poderosa e arrebatadora. Em inúmeros momentos eu esquecia o filme e admirava todos os elementos que, lá em baixo, brilhavam. Eles conseguiram elevar a qualidade do filme e despoletar emoções mais fortes a cada acontecimento; ninguém ficou indiferente à abertura icónica e, por dezenas de vezes, eu e a Raquel segredávamos "Estou tão arrepiada!". E estávamos. O jogo de Quiddich ganhou outra intensidade, embora soubéssemos quem seria a equipa vencedora; o Voldemort rastejante na floresta proibida foi aterrorizante, como há muito tempo não o era; o jogo de Xadrez dos Feiticeiros fez os nossos corações vibrarem com a potência dos instrumentos de percussão. E a cena final, tão apoteótica, fez-me soltar umas lágrimas de emoção (eu admito!).

Eu gosto muito mais de música do que de cinema, não é segredo. Eu adoro ver orquestras, acompanhar bandas sonoras e compositores. Mas Harry Potter faz parte da minha geração, do meu crescimento. Sou fã ferranha. E não queria perder uma oportunidade destas por nada. Foi uma experiência mágica e cheia de beleza, que qualquer grande amante de música instrumental (e fã de Harry Potter) ficaria sem palavras. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi o único, de todos os filmes da saga, que nunca tinha assistido no cinema. Hoje eu agradeço que a primeira vez tenha sido assim, desta forma.

sábado, 20 de maio de 2017

FAMÍLIA || 7 Coisas que Aprendi com o Pai


Não há almoços grátis: este pensamento já mereceu o seu devido tempo de antena aqui pelo blogue, mas foi um dos seus maiores ensinamentos, que fez questão de, desde cedo, mo explicar. Há sempre pedidos em troca, e um almoço grátis nunca é apenas um gesto inocente ou caridoso. Os almoços grátis pressupõem parceria futura, convidam a aceitares assinar um contrato, são expectativas de um beijo ao final da noite ou de um favor em troca. Sejam eles mais inocentes ou mais decisivos, os almoços grátis, mais tarde ou mais cedo se cobram. E é por isso que a carteira deve estar na nossa mão no momento em que a conta desce.

A vida é um convite: a vida é uma sucessão de variados convites que vamos aceitando ou declinando. A vida convida-nos a aprender, a tomar decisões, a tomar partidos e a escolher rumos. A vida convida-nos a estudarmos o que quisermos e a trabalharmos no que quisermos. Convida-nos a namorar, a fazer asneiras, a experimentar coisas e a falar com pessoas, a abraçar projectos. Cada dia é feito de milhões de convites e o mais importante é sabermos quais aceitar e quais declinar. A vida não está feita para aceitarmos todos os convites que nos surgem (porque muitos são traiçoeiros e porque não fomos feitos para todas as intimações) mas também depressa nos ensina que, se não aceitarmos pelo menos um, estamos a perder milhões de oportunidades, sem o sabermos.

A tua palavra é de honra: desde muito pequena, o meu pai ensinou-me a honrar o que quer que dissesse. Se fazia promessas, tinha de as cumprir, custasse o que custasse - afinal de contas, eu tinha prometido. Se afirmasse alguma coisa, tinha de me responsabilizar pelo que tinha saído da minha boca. Se me comprometia em alguma ideia, tinha de valorizar esse compromisso. Quando cresci - e comecei a visualizar o mundo de uma forma menos inocente e infantil - perguntei-lhe como era possível esta honra toda da palavra se a maior parte das pessoas não cumpre os mesmos princípios. E a sua resposta, essa, eu nunca vou esquecer "porque honrares a tua palavra não é um compromisso aos outros mas sim contigo. É saberes que tudo o que dizes foi pensado vezes sem conta, antes de sair da tua boca. É saberes que terás sempre plena consciência da mensagem que estás a passar aos outros, do que estás a prometer a alguém, de que realmente sentes aquilo que dizes. Nunca deixes de reivindicar a honra da palavra mas não te preocupes com a falta dela nos outros. É problema deles e, mais cedo ou mais tarde, vai pesar-lhes nos ombros. Preocupa-te com a tua porque só quando honras o que dizes é que tens confiança no que pensas e sentes. A honra não é para mais ninguém senão para ti própria."

A gostar de ler: na minha família, é difícil eu admitir quem me incutiu o gosto de ler. Dou a medalha à mãe porque era ela que lia todas as noites para eu dormir, mas era o pai que eu admirava porque tinha sempre tempo para ler. Para todo o lado, ele tinha um livro consigo e os mais variados autores passaram-me pelos olhos. Foi ele que me fez apaixonar por Saramago, quando me ofereceu as Intermitências da Morte. Foi com ele que aprendi a deixar as minhas anotações no final do livro, a data de quando o li e o local. É com ele que mais falo de literatura e é ele que me espicaça para experimentar autores diferentes e mais audazes. Para ele, uma pessoa que não lê é uma pessoa vazia e já vi muitos amigos meus, nada amantes de livros, pegarem num depois de um conversa com ele. É a sua arte favorita e uma das minhas, também.

Viver sem medo de arriscar: o percurso do meu pai e a sua história de vida é absolutamente fascinante e aventureira. Foi um homem que não desistiu do seu sonho quando todas as cartas apontavam-lhe outro caminho. Decidiu viajar, experimentar, aventurar-se, arriscar e caminhar para onde ele sabia que tinha de ir, mesmo que não fosse o caminho perfeito. Não fez o percurso mais clássico da vida de um adolescente e jovem adulto e eu fico muito aliviada por isso, porque acumulou uma experiência e uma sabedoria sobre a vida, sobre as ideologias sociais e sobre as pessoas que me inspira. É com ele que tenho as maiores discussões (no bom sentido) sobre a nossa sociedade, sobre o mundo, sobre viagens e sobre crescer. E desde sempre que o vejo dar-me empurrões para onde o sabor do vento me puxa. Ele nunca me impingiu um futuro; ensinou-me a voar mas, mais importante que isso, ensinou-me a cair.

Argumentar: já referi que é com ele que tenho as maiores discussões. A mãe também entra, claro que sim. É à mesa que um de nós se lembra de levantar uma daquelas questões terríveis que faz com que cada um escolha as armas que considera certas para se defender. É ele que mais sabe desarmar-me nos meus argumentos e é assim que eu os fortaleço. É ele que me tira as certezas e põe-me no lugar. É ele que me abre os horizontes e ensina-me que há mais cores além do preto e branco. Desde miúda.

Vamos perdendo certezas com a idade: foi também ele que partilhou comigo esta lição. Quando somos mais novos temos certezas de tudo. Se estou a andar e as casas estão a aumentar, estou a avançar. Se elas estão a diminuir, estou a recuar. E pronto. Somos muito assim, radicais, definitivos. Não só em ideologias ou opiniões. Falo mesmo em atitudes face à nossa vida e às nossas decisões; "não posso errar no curso porque só pode ser isto que quero", "nunca mais vou lá", "nunca mais falo com x pessoa", "vou sempre apoiar esta minha decisão". E a verdade é que, à medida que envelhecemos vamos ganhando mais dúvidas e as certezas passam a incertezas. E as casas já não diminuem nem aumentam. Às vezes vamos parar a ruas novas.

Feliz aniversário, pai!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

DAILY || Para adocicar o vosso dia (adocicou o meu, pelo menos...)


"Saíste super tarde da sala, hoje. Aconteceu alguma coisa?", perguntei eu, a olhar para o relógio enquanto o João me cumprimentava, acabado de sair da escola, com uma mochila gigante e pesada às costas e um ar de quem iria adormecer em meia-hora. "Estás a ver aquela menina ali? É a minha namorada.", respondeu-me, a apontar para uma menina a andar de moleta. "Ela torceu o pé no outro dia, por isso eu levo a mochila dela para todo o lado, na escola".

Fiquei derretida com a sua resposta, tão doce. Não havia ali nenhuma entoação de obrigação, queixa ou resignação. Ele levava a mochila dela porque era o certo, o mínimo que ele podia fazer para a ajudar. Quando contei à minha tia, nem quis acreditar.
Tenho muito orgulho neste miúdo. Eu sei que toda a gente diz isso dos seus pequenos petizes da família. Faz parte. Mas eu tenho muito orgulho porque ele é um menino extraordinário. Tem oito anos e uma noção de cavalheirismo, melhor, de companheirismo tremenda. Não há idade certa para percebermos que temos de ser a mão amiga do outro; E por mão amiga eu falo de um desconhecido na rua que precise de ajuda, de um amigo do peito que esteja a necessitar de nós ou da namorada (da escolinha ou da vida) que está de moleta. Quantas pessoas têm esta sensibilidade? Este toque? Quantas pessoas, bem mais velhas que o João, é que despertam das suas bolhas, das suas rotinas, do seu umbigo, para olharem ao seu redor?

Ele tem oito anos e acarta a sua mochila e o troley da namorada. Uma relação que, para nós, não nos diz nada, de tão novinhos que são. Mas que diz muito do seu carácter; tão pequeno, já tem um coração tão grande. É assim mesmo, João.

domingo, 14 de maio de 2017

MÚSICA || Parabéns, Salvador!


Não desmerecendo o enorme feito pelo Benfica, que é o meu clube e para o qual reservo um imenso orgulho, e confessando que não me identifico propriamente com tudo o que o Salvador afirma por aí, não podia deixar de dar os parabéns a um artista que criou um momento que, até à data, eu só tinha presenciado através dos jogos da Selecção: fez um país inteiro unir-se e torcer pela mesma coisa.

Numa competição europeia tão conhecida pelas suas tendências POP e de entretenimento, Portugal apresentou-se com uma voz delicada e doce e nada mais do que uma melodia de Jazz que, para mim, encaixa muito nas canções antigas da Disney e com uma letra melancólica, na língua mãe, que se abraça muito aos registos antigos do Fado. E conquistou Europa fora (e mais além).

Pela graciosidade da voz do Salvador, pelo arranjo instrumental muito rico, por a letra ser tão crua e vulnerável, Amar Pelos Dois destacou-se por ser única. Suscitou a curiosidade de quem não entende a nossa língua, para perceber por que razão a letra despertava tantas emoções nos outros que a compreendiam. E fez-nos acreditar que, mesmo que não ganhássemos, tínhamos apresentado um trabalho incrível e meritório. 

Ao fim de tantos anos a ignorar o programa, eu (e mais uma carrada de pessoas, acredito) liguei a televisão e torci nas votações. Porque merecíamos ganhar, mesmo que não fôssemos lá num registo POP. Nós entretemos. Nós prendemos um público internacional. Nós criámos empatia com uma voz a cantar a língua mãe. Isso é espectáculo e entretenimento. Merecíamos ganhar.

Foi um momento muito bonito para Portugal, em que todos celebrámos e festejámos sem que fosse por futebol - embora eu adore futebol. Mas há mais para celebrarmos e torcermos juntos e o Salvador provou-nos isso. Também provou algo que tenho vindo a dizer há muito tempo: a música é a melhor linguagem universal e que tem o poder de aglutinar uma população de origens diferentes, histórias de vida diferentes e crenças diferentes. É assim que a música funciona: aglutina.

Parabéns Salvador, por polvilhares açúcar em tantos corações. O mundo anda amargo demais.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

PASSAPORTE || 10 Destinos que Quero (muito!) Visitar


É de coração cheio que eu recordo todos os destinos por onde já pude passar, todas as culturas que pude conhecer, todas as comidas que já pude provar, patrimónios naturais, culturais, artísticos que pude contactar. Viajar é a melhor coisa que vão levar da vossa vida, esta é a única certeza que levo comigo, ano após ano. É um privilégio já ter conhecido muitos dos meus destinos de sonho e de me ter apaixonado por outros tantos que decidi conhecer - e que me esforço muito para que vocês conheçam e se apaixonem, também, por aqui - mas a lista dos que quero descobrir nunca pára de crescer. A cada nova viagem que planeio, outros cinco destinos despertam o meu interesse. Este é o problema de quem é mordido pelo bichinho das viagens - fica cada vez maior e mais audaz.

Mas temos sempre aquelas viagens de sonho. Aqueles destinos que até vos falta um batimento cardíaco, cada vez que pensam nele. E quando planeiam essas viagens, a emoção é tremenda. Hoje, trago-vos 10 destinos que me fazem sentir assim. Que eu quero muito, mas mesmo muito, muito, muito conhecer. Aqueles que eu mais quero cruzar da lista. Alguns são cidades específicas, que não quero perder por nada. Outros são países, porque escolher só uma cidade ficaria muito complicado e tornaria a lista absurdamente extensa. A ordem de apresentação é alfabética.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

LIVROS || Soviet Space Dogs


Já não é novidade nenhuma, para vocês, que eu sou apaixonada por tudo o que é Universo, espaço e... cães, inclusive os cães espaciais - não é coincidência que a minha primeira cadela se tenha chamado Laika - e, portanto, delirei quando descobri o livro Soviet Space Dogs, que pretende apresentar-nos e homenagear todos os cães que fizeram parte do programa soviético espacial.



Para quem for apaixonado por boas edições de livros, certamente vai apaixonar-se por esta; a obra é de capa dura (não existem outras versões) com detalhes metalizados, as páginas têm um acabamento envernizado e, ao longo de toda a narrativa, encontram inúmeras fotografias, capas de revistas, selos, postais e páginas de livros, tudo relativo aos cães espaciais. No final ainda têm disponível uma lista cronológica com todas as missões que envolveram cães e as respectivas fotos dos mesmos, data de voo e cápsula onde viajaram. Se são tão curiosos com estes pormenores como eu sou, acredito que já estejam a bater palmas.


Soviet Space Dogs reúne uma série de conteúdos muito interessantes sobre os programas que envolviam os animais e a sua relação com a própria corrida espacial entre a URSS e os EUA, e a sua importância para que missões mais inesquecíveis e grandiosas - como a missão de Yuri Gagarin - fossem bem sucedidas. Quando falei sobre este livro a algumas pessoas, julgava que era de conhecimento geral que a Laika não foi a única cadela a descolar em direcção ao desconhecido. Quase uma centena de outros cães participaram em missões muito importantes e Olesya descreve como se processavam as fases de selecção dos animais, justifica a preferência dos soviéticos por cães e não outras espécies, partilha inúmeras curiosidades sobre estes corajosos de quatro patas e expõe todo o lado político e fantasioso do que era divulgado ao público sobre estas missões.


Apesar de, hoje em dia, já quase ninguém ligar aos feitos dos cães espaciais e conhecerem pouco mais que a Laika, na sua época estes foram verdadeiros fenómenos mediáticos e históricos, em todo o mundo e o Soviet Space Dogs clarifica-nos esta informação de forma soberba. Apesar de se encontrarem no meio de uma corrida espacial e de uma Guerra Fria, estes cães ultrapassaram todas as barreiras e adversidades, unindo o mundo num só fascínio, admiração e expectativa. Mas também geraram inúmeras polémicas éticas; Poderia a Laika ter sobrevivido? Por que não regressou? Será correcto sacrificar um cão pela sobrevivência humana, no espaço? E será que outros cães irão explorar novos desconhecidos como Marte, por exemplo? Estas são algumas das perguntas às quais o livro dá resposta.

Muito informativo, cheio de imagens apelativas e curiosas, especializado para quem te muita curiosidade em saber mais sobre missões espaciais, sobre todo este mundo tão científico e espectacular e, neste livro em especial, ideal para quem adora um bom amigo de quatro patas que ladra. Um dos livros sobre o espaço mais interessantes que já li.

Autora: Olesya Turkina
Número de Páginas: 237

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ISTO É TÃO INÊS || A Impermanência

Estava a preparar uma outra publicação quando este tema surgiu na minha mente e desencadeou uma série de reflexões que achei demasiado extensas para incluir nos rascunhos que estava a escrever. A impermanência.

Pode parecer que não mas eu sofro muito com a impermanência. É algo que estou a aprender a superar e que eu acredito que o crescimento possa ajudar. Aliás, já fiz alguns progressos consideráveis. Já não me custa como custava, dantes. Mas continuo a sofrer com a impermanência.

É um conflito interno. Por um lado, racionalmente, eu compreendo; as coisas não duram para sempre. Tudo. As pessoas não duram para sempre, há relações que não duram para sempre, não ficamos nas mesmas etapas e fases para sempre, não ficamos nos mesmos lugares para sempre e nem as coisas duram para sempre. Tudo tem o seu tempo e propósito para durar e devemos desfrutar dessa presença enquanto permanecer do nosso lado e aceitar que as coisas mudam e que não continuamos a mesma coisa, com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares e nas mesmas fases até ao fim. A mudança é natural.

Mas o meu lado emocional martiriza-se com esta realidade. Eu ganho apego e não me consigo conformar que as coisas não durem. Eu faço laço com as pessoas, animais, com as coisas, com as rotinas, com os lugares e cidades, com as etapas de vida em que me encontro. E ver-me obrigada a dizer adeus a algum destes laços fragiliza-me. Para mim, é muito difícil lidar com a morte. Porque é o adeus definitivo, porque é a certeza de que as pessoas não duram para sempre. Para mim, terminar uma fase da minha vida para saltar para outra completamente desconhecida é um sufoco porque é a noção de que eu nunca mais vou reviver determinados momentos e experiências. Saber que nunca mais vou regressar a um lugar que gostava dá-me uma profunda tristeza. E em viagens, regresso sempre com um vazio por achar que nunca mais na vida vou rever tal lugar.

É horrível. É uma saudade que não traz nada a não ser sofrimento. Nada do que eu referi cá em cima irá fazer-me avançar, sorrir ou concluir. Só me fará sofrer. E é por isso que luto tanto para compreender a impermanência, para a aceitar. A impermanência é uma naturalidade da vida que eu tenho de abraçar e vou melhorando, ano após ano. Fico muito orgulhosa de mim quando me vejo numa situação em que tenho, simplesmente, de desamarrar o laço e seguir em frente e observo que o fiz sem sofrimento desnecessário. Que, se tivesse acontecido a mesma coisa há uns anos, eu não teria tido esta reacção tão compreensiva. Há dias em que a emoção ainda ganha, e sofro. Mas, quase sempre, a minha consciência consegue lutar pelo seu lugar e faz-me compreender que não me posso martirizar desta forma.

Nada dura para sempre. Absolutamente nada. Não significa que não tenha sido maravilhoso, depois de se ir. Podemos e devemos sorrir por ter acontecido. Pelos nossos entes queridos ou animais terem feito parte da nossa vida até ao último segundo. Por aquele caderno maravilhoso, que agora acabou, ter guardado tantos pensamentos e reflexões nossas. Por aquela pessoa ter cuidado tão bem do nosso coração no tempo que tinha de cuidar. Por aquela rotina ter sido tão feliz, mesmo que já não exista. Por aquele livro ter sido tão maravilhoso, mesmo que tenha terminado e que a história não se prolongue mais. Por a Faculdade ter sido tão desafiante e divertida, mesmo que já não estejamos lá. Por aquela casa ter sido sempre a nossa casa, mesmo que já não seja. Por aquele lugar ter sido palco de tantas coisas maravilhosas, mesmo que talvez não regressemos nunca mais. Vão sempre existir na nossa vida por terem feito parte da nossa vida. Moldaram o nosso carácter. Construíram memórias que vocês vão partilhar durante anos a fio. Garantiram inúmeras aprendizagens que levam convosco para o desconhecido, que é a mudança. Vivem nos nossos corações e só quando visualizamos desta forma é que aceitamos que também outras coisas estão por vir e que não podemos ter medo de avançar e desbravar o desconhecido. Coisas que nos vão fazer sorrir, festejar, aprender, amar, deslumbrar, entreter e que, também elas, não vão durar para sempre, vão acabar, vão deixar saudades - que só vão incluir sofrimento se o permitirmos -.

E o que fazemos, sabendo que nada dura para sempre? Como abraçamos algo impermanente? Com os braços esticados e um sorriso no rosto. Vamos aproveitar, desfrutar e agradecer por algo que nem sequer dura para sempre ter decidido dividir um pouco da sua impermanência ao nosso lado. Pelo tempo que durar. E depois disso? Vamos desamarrar o laço e avançar. Sempre em frente, sem medo, rumo a novas impermanências. E vamos permitir que elas nos transformem.

terça-feira, 2 de maio de 2017

FILMES || Life In a Day


Life In a Day é um documentário que mostra o dia 24 de Julho de 2010 a partir de mais de 80 mil vídeos submetidos por participantes de todas as regiões do globo. O objectivo do filme é mostrar às gerações futuras como é viver na nossa época, e resulta numa combinação que conta com 192 países e uma enorme miscelânea de acontecimentos em 24 horas.

É impressionante a percepção de que realidades diferentes da nossa não existem só entre pessoas de duas regiões opostas do globo. Por vezes, a nossa realidade e a do nosso vizinho são completamente distintas. O que vivemos, as nossas rotinas, os nossos essenciais de dia-a-dia, os nossos gostos e decisões, as nossas prioridades mudam completamente de ser humano para ser humano e é extraordinária essa pluralidade. Não sabemos nada do que se passa na vida das outras pessoas, nas rotinas das outras pessoas e isso intensifica-se muito mais quando vivemos fechados nos nossos pensamentos, no nosso mundo, sem vermos o que existe lá fora.

É quase mágico como um dia pode correr de formas tão diversas para tantas pessoas; para uns, é só mais um dia; para outros, é mais um milagre poderem acordar; é um dia de festa, de nascimento, de entrega, de felicidade. Mas é um dia de adeus para outros tantos. De surpresas e decisões. Ou de sobrevivência e aventura. 

Faz-nos reflectir sobre este tesouro que são as 24 horas que nos são entregues, todos os dias. O que podemos fazer com elas. O quanto algo que não é extraordinário, para nós, pode ser para outra pessoa. No quanto podemos fazer e decidir num dia. É um documentário que abre os nossos horizontes e que nos faz olhar para o mundo num prisma mais humano. Mexe com as nossas certezas e com as nossas ideias básicas. Faz-nos estar mais abertos à diversidade humana. E isso é tão belo.

O filme está disponível, na íntegra, no Youtube e podem activar as legendas - a tradução está óptima. No entanto, tenho de deixar o aviso prévio de que algumas cenas não são recomendadas a pessoas mais sensíveis, expondo alguns cenários de violência e crueldade (humana e animal), sem qualquer tipo de censura auditiva e/ou visual.

segunda-feira, 1 de maio de 2017


Dei por mim a reflectir sobre Abril da mesma forma que reflecti sobre Junho do ano passado. Até agora, foi o pior mês do meu ano, por mais razões do que aquelas que, provavelmente, estão nos vossos palpites, e com uma certa dose de razão, também. Abril foi muito duro comigo, mas não fui ao tapete. Agarrei-me às coisas maravilhosas que também trouxe, calcei as luvas de novo, meti o molde nos dentes e sai à luta, muito acabada, mas sem vontade de levar um knockout

domingo, 30 de abril de 2017

PASSAPORTE || Ler Devagar


Nasceu numa litografia do Bairro Alto mas acabou por sediar a sua casa no LxFactory, a livraria Ler Devagar emerge, em todo o seu esplendor, à volta de uma rotativa de três andares que, inclusive, fez algumas das primeiras edições do Expresso.

A Ler Devagar é, talvez, uma Meca para amantes de livros, em Lisboa. É impossível alguém entrar na livraria e não deixar a boca cair de espanto e a cabeça inclinar-se para cima, de fascínio. Por todo o lado, um número incontável de livros repousa nas prateleiras, até chegar ao tecto. Há livros para todos os gostos, de todas as épocas e dos mais variados temas. À entrada encontram as edições e exemplares mais recentes (as novidades) e, à medida que vão subindo, encontram exemplares e obras mais antigas. 


Ao longo de toda a livraria têm sempre a colossal rotativa no centro que, curiosamente, combina muito harmoniosamente com o restante espaço, e por onde podem subir para ter novas visões da Ler Devagar ou para lanchar. Existem dois cafés em todo o espaço - um deles com o famoso Bolo da Marta - e inúmeras mesas onde podem fazer o tempo parar enquanto fazem o estômago feliz e deixam-se envolver por um livro. É um lugar que, se estivesse perto da minha casa, seria eleito para eu estudar ou simplesmente estar.

É facílimo um leitor perder-se por entre corredores cheios de livros e tantas coisas interessantes ao seu redor. O espaço é muito confortável. Dá vontade de passar horas lá dentro. A livraria reúne, com alguma frequência, uma série de eventos e exposições que podem consultar na agenda e muitas delas são gratuitas e valem a pena a visita. 

Senti-me a Bela a ver a biblioteca do Monstro. E, se como eu, suspiram com essa cena do filme - porque são tão bookworms como eu - então recomendo vivamente que visitem este lugar.