quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FOTOGRAFIA || Analog Summer


Este verão, tenho dado uso à minha câmara analógica. Além de todo o sentido de oportunidade quando só temos 30 chances de registar momentos, sinto que não é só a fotografia que se torna palpável - contrariando um pouco o movimento digital.

Há uma beleza que não vos sei explicar mas que me envolve por completo quando escolho a dedo quais são os momentos que quero perpetuar. Quais são as pessoas cujos sorrisos quero registar. Qual a altura do dia que eu quero guardar, para sempre. E quando revelamos estes registos, parece sempre que têm sabor a arte. Nunca nos queixamos de absolutamente nada porque todos os focos, luzes e pormenores estão apanhados exactamente da forma como deviam. São fotografias que nunca perdem essência, muito pelo contrário - libertam-na.

Há qualquer coisa de apaixonante numa fotografia desfocada ou de uma expressão facial espontânea, porque significa que estávamos demasiado ocupados a desfrutar em pleno do momento para preparar poses ou sorrisos. O desfoque traz o movimento, que traz a recordação. Do abraço. Da dança. Da gargalhada que nos faz soltar a cabeça para trás. A expressão facial traz o discurso, o olhar que nunca fica registado quando estamos concentrados em sorrir para a câmara, o sorriso de perfil que só dá para ser captado quando desconhecemos estar a ser fotografados.

O flash que faz o rosto ficar num clarão, com um pequeno vislumbre dos olhos. O flash que choca e reflecte a luz que a própria pessoa já irradia, de dentro. Eu olho para estas fotografias - umas mais bem tiradas que outras, todas elas importantes - e sinto a essência de cada uma. Eu oiço a gargalhada que apanhei. Sinto o cheiro do fumo do churrasco que preparávamos. Oiço o som dos pássaros na paisagem. Recordo a piada que me disseram no segundo antes de me apanharem através da lente. Sinto o perfume das pessoas e o toque dos seus abraços. Fico com o gosto da pizza que mordemos, ao mesmo tempo, e da Coca-Cola doce e fresca que estala na língua. Recordo-me dos raios de Sol finais que me escaldavam o ombro direito e recordo a pele arrepiada do ombro esquerdo, escondido na sombra. Sei todas as músicas que tocaram na fotografia de tons mais escuros. Leio as nossas conversas através dos olhos que foquei. Eternizo sentimentos que podem não durar para sempre, na vida.

Há sempre verdadeiros artistas de máquina. Os que conseguem fazer todas as luzes resultar, os que fazem todos os focos dar certo. Os que admitem a derrota quando está demasiado escuro. Os que sabem quando o rolo está a queimar. E depois existe a própria arte do acaso, que a fotografia analógica promete, sempre. De abrir o envelope e descobrir como é que a espontaneidade se apanha. São registos que tiramos, às coisas e pessoas, por fora, mas que nos revelam sempre a sua essência, por dentro.

5 comentários:

  1. adorei o texto <3
    quando era mais pequenina usavamos sempre máquinas analógicas e era como se fosse natal quando o meu pai vinha do fotografo com as fotos reveladas, tenho pena de ter perdido esse ritual mas vou fazer como tu e traze-lo de volta
    beijinhos

    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

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  2. Tão bonito! Dá-me vontade de voltar à minha Minolta e aos meus rolos fora do prazo.
    Obrigada por esta viagem no tempo.*

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  3. Lindo texto, Inês. :) Parece incrível o facto de também ter começado a usar as máquinas fotográficas analógicas do meu pai também no início do verão! :) Não sei o que sinto cada vez que capto cada momento, é como se fosse único!
    Beijinho grande.

    https://nepheshing.blogspot.pt

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  4. Inês, agora fiquei com vontade de resgatar a minha :) que texto bonito! E percebo a associação que fazes com a fotografia analógica - mas estou convencida que a fotografia tem sempre essa magia, seja em que formato for :) agora, a magia de revelar as fotografias, essa é única!

    Jiji

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